Tuesday, 22 June 2021


Nos 25 anos do livro “Macau 1999 – O Desafio da Transição”

Entrevista ao Jornal Hoje Macau


Escreveu aquele que pretendia ser o guia prático para a Transição de Soberania de Macau. Dezasseis anos depois do processo, o autor avalia os pontos positivos e faz novas previsões. É preciso alargar o território, caso contrário a sociedade não irá aguentar. 

Passam 25 anos desde que lançou o livro “Macau 1999 – O Desafio da Transição” e 16 desde a transferência de soberania de Macau para a China. Ao olhar para trás como avalia este percurso?

No geral é um balanço positivo. Muita coisa mudou, algumas coisas boas, outras nem tanto, mas um saldo positivo. 

Aspectos negativos?

Há coisas menos boas. Por exemplo, os cheques pecuniários. Macau, devido ao desenvolvimento no sector do Jogo e pelo monopólio da Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), viu-lhe induzida uma certa carestia de vida. E a resposta que o Governo encontrou foi o cheque. Mas isto parece-me que é um bocado de preguiça de quem toma decisões. Seria muito mais eficaz se se estudasse um sistema educativo gratuito, de saúde gratuito ou que pelo menos para aí se encaminhasse. Se houvesse um sistema de segurança social mais bem pensado e consolidado... Não é quem mais precisa que tem o cheque, o cheque é dado a todos.

Ora, se imaginarmos que o cheque do Stanley Ho tem o mesmo valor que o do motorista dele, isto deixa de fazer sentido. Há uma falta de equidade e justiça retributiva, que era a ideia que se teve. Isto não funciona. Em termos económicos, lembro-me de existência, antes da transição, de alguns sectores económicos com alguma actividade, por exemplo, o sector do vestuário, do brinquedo, das flores artificiais.

Existiam algumas indústrias que o contributo que davam para economia de Macau não se comparava ao Jogo, mas era uma economia diversificada. A tendência que temos visto é de, até há um ano e meio, um permanente crescimento das receitas do Jogo, mas mais grave que isso foi o crescimento da dependência da economia de Macau deste sector. Varreu-se das ruas o comércio, por substituição de investidores de Hong Kong, que tomaram conta do percurso pedonal para as Ruínas de São Paulo, por exemplo. Isto induziu o aumento das rendas para os comerciais e residentes, que não podem competir com estes investidores. A falta de diversificação é claramente um  ponto negativo, desde o fim do monopólio do Jogo.

O tamanho é também uma condicionante...

Sim, a pequenez é a chave de todos os problemas do território. Macau sempre foi pequeno para a procura de chineses que vinham para aqui para melhorar as suas condições de vida e esse facto originou, ainda durante a administração portuguesa, a falta de espaço quer para manufacturas, quer para as próprias pessoas conseguirem ter habitação. A solução alcançada foi a dos aterros. Isto incrementa-se no princípio do século XX. Poderia fazer algum sentido enquanto o exercício da soberania em Macau foi de Portugal. A partir da reunificação do território à China, embora havendo dois sistemas, o país é o mesmo, portanto, continuarmos todos ‘empacotados’ num país que é o mesmo. Parece-me um bocado despropositado.

Qual a solução?

A chave para os problemas de Macau, para a diversificação da economia, criação de mais sectores, etc., está no alargamento das fronteiras. Porque mesmo com a construção dos novos aterros, quando estes estiverem concluídos já não serão suficientes para diminuir a densidade populacional de Macau.

Chegámos a um ponto em que os aterros não resolvem problema nenhum, antes pelo contrário. Actualmente é do conhecimento geral que os aterros são extremamente prejudiciais ao ambiente, por razões óbvias. O que se está a fazer é uma violência para com o ecossistema. Portanto a grande solução é uma medida política, que tem que partir do Governo Central, e que tem de passar pelas autoridades de Cantão, no sentido de alargar.

É exequível? Neste momento?

Sim, claro. É difícil, sim, mas há espaços vagos. Por exemplo, à volta de Macau há imensas ilhas e essas sim, podia fazer-se um esforço para se aterrarem umas quantas para as unir. Mas há muito terreno vago aqui na província de Cantão. Em termos simples, Macau podia emprestar uma valia económica, um interesse e promoção em termos de valor económico desses próprios terrenos e, claro, podiam ser agregados a Macau, porque estão vazios. Até consigo ir mais longe: este alargamento traria soluções para todos os problemas de Macau, porque não há nenhum que não seja afectado. O trânsito, os preços do parqueamento no território, tudo isto está completamente sufocado. Isto poderia ainda estimular a criação de alternativas à indústria do Jogo.

Que tem apresentado valores mais baixos...

Sim. O que estamos a assistir neste momento é uma perda de apostadores. O que tem acontecido é que a indústria do Jogo começou a sofrer concorrência de outras partes onde o Jogo também está, e que estão a atrair muita gente, mesmo chineses, que vinham jogar para Macau, e que agora procuram Vietname, Singapura, etc. Deixámos de estar naquele deserto em  que só em Macau é que se jogava.

Defende então que é o momento ideal para alargarmos fronteiras?

Diria até que já começa a ser tarde. A pequenez de Macau não dá, por exemplo, para termos o número de veículos que temos. Estamos completamente sufocados por falta de espaço.

Viajemos até ao dia em que escreveu “Macau 1999 - O Desafio da Transição”. O escritor de hoje voltava a escrever este livro?

Não, não. As coisas evoluem e a minha própria capacidade crítica e o volume de informação que hoje tenho são diferentes, não são os mesmos de há 25 anos. Portanto, de certo que não o escreveria da mesma forma. Mas confesso que, a ideia essencial, ou seja, a defesa de um sistema político democrá-tico para Macau, continuaria a defendê-la.

Já defendeu que Macau tem liberdade, mas não democracia. Alguma vez teve?

Sim, teve, em anos muito recuados, no tempo em que Macau tinha uma Governação bastante assente no nosso municipalismo, havia democracia. Ora, era um Governo dos homens bons e estes homens bons eram escolhidos. Isto era o princípio e podia ter evoluído. Mas a própria administração portuguesa  deu cabo disso com a criação do primeiro Código Administrativo, querendo assegurar uma intervenção central mais evidente.

O Senado foi perdendo poder?

Sim, quando é nomeado o primeiro Governador começam a ser esvaziados os poderes do Senado. Porque o Senado é que era, de facto, o Governo dos homens bons de Macau. Não podemos é confundir Macau com aquilo que é hoje. Nessa altura, o Senado - que funcionava também como Câmara de Comércio - não misturava os interesses dos comerciantes portugeses com os dos chineses.

O sistema democrático que defende no livro teria efectivamente funcionado em Macau?

Não tenho a certeza, mas suponho que já houve uma grande evolução durante a aprovação do Estatuto Orgânico de Macau em relação ao sistema político anterior. Porque este último era um estatuto orgânico que era praticamente ‘chapa três’ para todas as antigas colónias, ou seja, não havia uma participação muito grande. Nesse sistema político, quando havia eleições, o recenseamento praticamente confinava-se aos portugueses e aos macaenses que trabalhavam aqui nos serviços públicos. Não existiam quase chineses nenhuns, porque não lhes interessava, não estavam habituados, não tinham interesse. Mas, claro, as coisas evoluíram e depois surge a medida do Almirante Almeida Costa, que abriu demasiado o sistema. Esta medida permitia que qualquer chinês chegado a Macau, nem que fosse no dia anterior, se estivesse legal podia votar. Isto também foi excessivo, pois temos de ligar os sistemas às realidades. Não sei se os condicionalismos políticos de Macau permitiam que um sistema democrático tivesse pernas para andar. Quem se iria opor, claro, seria o Governo Central da China.

Colocaria em perigo o poder de Pequim?

Não acredito. Com a pequenez da RAEM e a circunstância de isto ser desenhado no quadro da reunificação de Macau à China, penso que não. Não colocaria em perigo o poder do Partido Comunista na China, nem os projectos do Governo Central, nada. Isto é muito pequenino.

Como é que avalia este interesse e movimento das camadas mais jovens pela política, com o claro exemplo da manifestação contra o Regime de Garantias? Há um acordar para a democracia?

Sim, acredito que sim. Até porque hoje em dia há uma maior abertura dos jovens em Macau e, claro, uma maior exposição ao mundo. Não é só a televisão, mas creio que por virtude da internet os jovens estão mais expostos. É uma questão geracional, estas novas tecnologias... Depois há uma certa  ansiedade, pelo facto de na China existir uma limitação no acesso à internet e aqui em Macau não. Isto viabiliza o acesso à informação quase sem limites. Eu vejo isso também pelos meus alunos.

Desmistificando, dizer colónia referindo-nos a Macau é um erro?

É. Macau nunca foi uma colónia típica. Depois da Guerra do Ópio a China não tinha capacidade para defender os interesses de Portugal no território, como não conseguiu defender Hong Kong. A solução política que se encontrou foi integrar Macau no sistema colonial português. Mas foi uma integração para “inglês ver”, porque Macau sempre teve uma forma autónoma em relação ao poder central. Havia uma dependência do vice-rei da Índia, ao longo da história. Mas a integração de Macau no sistema colonial português é apenas para manter este território ligado a Portugal pelo perigo de invasão de  outras potências europeias. No fundo, muito de Macau continuou a ser decidido no próprio território. Portugal não devia ter tratado com tanto descuido Macau.

O livro foi entregue à Assembleia da República e, na altura, cada deputado tinha à sua frente o seu livro. Foi uma atitude pensada?

Perfeitamente. A intenção do livro, essa sim um bocado ingénua, era de influenciar os trabalhos de alteração do Estatuto Orgânico de Macau e em vez de se prolongar o sistema político que vinha de 1976, fazer uma abertura política. Isto tem uma razão. É que, na altura, havia o sentimento que Portugal tinha descolonizado mal as antigas colónias, que não perdeu Macau nessa altura porque a China não quis ficar com o território. Quando o livro ficou pronto tive como intenção influenciar. 

Mas não funcionou... 

Não se perdeu nada para além dos livros. Tenho a impressão que nenhum dos deputados leu uma página sequer. Os deputados estão lá, em princípio, para representar os partidos, no Governo ou na oposição, mas para além disso há uma actividade escondida dos deputados que é representarem e influenciarem as decisões dos grupos económicos para os quais trabalham. Aos grandes escritórios que fazem as leis com erros para depois, não só ganharem dinheiro da feitura dos projectos, como para suscitarem pareceres dos próprios defeitos da lei. Desde o início que isto é pensado. Só ingenuamente é que podemos pensar que as agendas dos deputados dependem de um programa do partido. Claro está que a essência da democracia são os programas dos partidos, que têm as suas prioridades, e depois o eleitorado é que, vendo os programas, escolhe conforme os seus desejos. Isto não acontece em Portugal. Já ninguém quer saber dos programas, nem os próprios partidos.


Afirmou que, durante as negociações que conduziram à Declaração Conjunta, os portugueses  “pediram pouco”.

A verdade é que não tínhamos de pedir nada, o que deveríamos ter tido eram objectivos. Acho que os nossos objectivos ficaram-se por muito pouco. Tive oportunidade de estar num jantar, onde esteve o embaixador Rui Medina, que foi o primeiro chefe da nossa delegação que negociou a Declaração  Conjunta, e ele próprio dizia que o nosso objectivo era chegar onde os ingleses chegaram nas  negociações sobre Hong Kong. Isto é um erro grave, foi um erro grave, porque a génese de Macau nada tem que ver com a de Hong Kong. Nada. Não chegámos aqui a humilhar a China com a derrota na Guerra do Ópio. Pronto, somos diferentes. Sempre fomos. Tivemos uma intervenção que nunca foi bélica. Logo à partida uma é um fenómeno colonial e a outra é o estabelecimento de um grupo de indivíduos que transformam Macau no centro do seu aparelho de comércio na zona. Devíamos ter feito valer esta distinção entre duas realidades bem distintas. E não ter apontado o nosso êxito em ficar ao nível dos ingleses. Foi pena.

Considera que os nossos representantes estavam preparados para as negociações?

Não, a nossa delegação estava muito mal informada sobre Macau. Um dos membros da delegação, que é meu amigo, tinha sido Secretário Adjunto em Macau por um ano, ou seja, muito pouco tempo. Embora possa ter consciência, ligado à economia, não conhecia a história de Macau, mas a verdade é que mais ninguém sabia. O que acho é que deveríamos ter recorrido a macaenses ilustres, que até viviam em Portugal. Podíamos ter feito o convite para que estes tivessem, connosco, construído uma espécie de grupo de trabalho, ou pequeno Conselho, com reuniões periódicas com os membros da delegação. Tudo para preparação.

Pecámos por não saber?

Sim, pecámos. Foi o que se vê. Devo apontar que o grande mérito para a transição de Macau é da República Popular da China.

“Um país, dois sistemas” funciona?

Penso que sim. Funciona, mas não numa base que tenho visto de alguma reivindicação. Há tempos alguém conhecido afirmou publicamente que ‘o segundo sistema somos nós’, ora isto não tem nada que ver com o segundo sistema. O segundo sistema resultou da necessidade de ultrapassar a visão do mundo que tinha Mao Tse Tung, em que era considerado que os Estados Unidos eram tigres de papel, que o capitalismo era o diabo e por aí fora. Isto mudou e percebeu-se que a única forma de se avançar para a reunificação da China, não era invadir Macau, Hong Kong e Taiwan e implementar o seu sistema, mas sim admitir que num longo período – de 50 anos – o sistema capitalista pudesse existir na China reunificada, com o sistema socialista em vigor na China. Penso que isto funciona porque nada foi alterado aqui para aproximar as teses capitalistas das teses socialistas, portanto, Macau funciona com a autonomia visível que se quer.

E na invisível?

Não sei, nos canais entre Macau e Pequim - os que não se vêem, não é que sejam subterrâneos, mas não se vêem talvez por falta de visibilidade. Não sei até que ponto é que há ingerências aqui. É muito provável que haja. Mas, no fundo, os dois sistemas, quer em Hong Kong, quer em Macau, funcionam pacificamente com o sistema socialista da China.

E Taiwan?

O problema de Taiwan e da sua reunificação passa muito pelos Estados Unidos da América. No dia em que os EUA tirarem o tapete a Taiwan, não há razão nenhuma para esta região não querer unir os dois lados do estreito.

Qual a sua opinião sobre a Lei Básica?

É um documento importante porque funciona como a mini-constituição de Macau, isto é, chegou-se à conclusão que o território deveria  ter este documento que fosse o vértice do nosso sistema político e legal. Ou seja, que nenhuma lei contrariasse a Lei Básica. Foi um documento importante, porque quem fazia a vez da Lei Básica, antes da transição, era o Estatuto Orgânico de Macau e portanto é natural que este fosse revisto.

O futuro?

As perspectivas de Macau são fantásticas se houver uma urgente revisão dos limites territoriais do território. Se não se fizer isto vai ser um inferno crescente, de falta de espaço, aumentos dos preços e da dependência económica do Jogo. Porque o Jogo retirou o espaço possível para outras alternativas, sufocou Macau. Isto da Economia é como os aviões com quatro motores, se algum deles avariar, o avião continua a voar. Mas só com um motor, se esse se avaria, o avião despenha-se. Se o único motor da Economia do território, que é o Jogo, se avariar, Macau vai passar mal.

Filipa Araújo

filipa.araujo@hojemacau.com.mo 

20.Dez.2015

Monday, 21 June 2021

 

Homenagem a Jorge Álvares

Convite

It’s about to end the year in which five centuries ago the first Portuguese navigator arrived to the south China coast, so a group of Macau residents, friends from China and Portugal, considers to be their duty to organize a public event that will celebrate this historical event that marks the beginning of the century’s long relationship between Chinese and Portuguese.

區華利

今年下旬將會是首位葡萄牙航海家到達南中國的伍佰週年。因此,一批澳門居民與來自中國及葡萄牙的朋友盡他們的義務組織公開活動去紀念中國及葡萄牙之間締結數百世界的深厚友誼的歷史時刻

 

It was in 1513, exactly 500 years ago, that Jorge Álvares, Portuguese navigator, arrived at the Pearls River delta. According to the chronicles written at that time, Jorge Älvares was very well received by the local people, creating the conditions for further contacts that led to the Portuguese establishment in Macau.

1513 年,葡萄牙航海家區華利來到珠三角。根據當時的文獻記載,區華利受到當地居民熱情款待,因此創造條件令葡萄牙與澳門建立更多接觸。

 

This first encounter between people of two nations from opposing sides of the vast Eurasia continent started the cultural interchange between China and Portugal and strongly marked the history of both countries, being the origin of this unique place, which is the Macau Special Administrative Region of the People’s Republic of China.

葡萄牙及中國位於歐亞大陸版塊上的各端,而兩國的文化交流及歷史始於如此獨特的地方-中華人民共和國澳門特別行政區。

 

To celebrate the 500th anniversary of this important historical event, we invite all Macau residents, friends of China and Portugal, to attend the ceremony that will take place on Saturday, 14th December, at 4pm, near Jorge Álvares statue, located in the small square in front of the old Macau’s Judicial Court Building.

今年剛好踏入500周年,在這個重要的歷史時刻,我們邀請所有澳門居民‘ 來自中國及葡萄牙的朋友來到位於前法院大樓前的小廣場内的區華利石像參與紀念活動,活動開始日期及時間為十二月十四日下午四時。



贊揚區華利利(1513-2013)

Homenagem a Jorge Alvares (1513-2013)

 

今日在區華利前地,我們一齊紀念區華利先生伍佰年前來華經商的貢獻(1513-2013)

Homenagem a Jorge Álvares (1513-2013), junto ao respectivo monumento, em Macau.

(Iniciativa de Paulo Godinho, alocução de Jorge Morbey, versão chinesa de António Viegas Costa)                                                                                                                                    

        



D. Manuel I (r. 1495-1521) 葡萄牙國王曼努埃爾一世        

明武宗Wuzong (r. 1505-1521) 大明朝第十代皇帝

 

中國和葡萄牙之閒的關係開端

Primórdios das relações entre a China e Portugal

                                            1

各位嘉賓

午安!

中國與葡萄牙建立往來已經有伍佰周年的歷史!但是,在葡萄牙歷史上,第一次提到中國是什麽時候?應該在1508212日,葡萄牙國王要求航海家Diogo Lopes de Sequeira 去亞洲發現馬六甲時,交給他的路程遵守規章制度文件内首次提及中國!

O primeiro  documento real português  em que se refere a China é o Regimento de Diogo Lopes de Sequeira, enviado à descoberta de Malaca, dado pelo Rei D. Manuel I de Portugal, em 12 de Fervereiro de 1508:

Perguntarees pollos çhins, e de que parte veem, e de cam lonje, e de quamto em quamto vem a Mallaca ou aos lugares em que trautam, e as mercadajas que trazem, e quamtas d´elles vem cada anno, e pellas feyções de suas naaos, e se tornaram no anno em que veem, e se teem feitores ou casas em Mallaca ou em outra allguua terra, e se sam mercadores riquos, e se ssam homeens fracos se guerreiros, e se teem armas ou artelhas rjas, e que vestidos trazem, e sse ssam gramdes homees de corpos, e toda a outra enformacam d´elles, e sse ssam cristãos se gentios, ou sse he grande terra a sua, e sse teem mais de hum rey entre elles, e sse vyveem entre elles mouros ou outra algua gente que nam vyva na sua lley ou crença, e, sse nam ssam cirstãos, em que creem ou a quem adoram, e que costumes guardam e para que parte se estemde sua terra, e com que confynam.[1]

 

The first Portuguese royal document referring China is the Standing Orders to Diogo Lopes de Sequeira, sent to discover Malacca, given by King Manuel I of Portugal and issued in 1508, February 12:

“Inquire about the Chinese, and where they come from, and how far is the place from which they come, and  when do they come to Malacca or to the places they trade, and the goods they bring, and how many of them come in each year, and the characteristics of their vessels, and if  they return in the same year they come, and if they do have factories or houses in Malacca or in any other land, and  if are them rich merchants, and  if are they weak or warriors, and if do they have powerful weapons or artillery, and  the clothes  they wear, and  if are they men of great physical stature, and all other information about them, and whether they are Christians or Gentiles, or if their land is large, and  if they have more than a king among them, and if among them are living  some Arabs and other people  that do not live according to their  law or belief, and, if they are not Christians, what is their religion and their God, and which customs  have them, and  to which part their land extends to, and with whom they confine.”

2

區華利先生是第一個葡萄牙人於1513年來到中國。當時他在馬六甲遇到一些中國商人跟他們友好的建立了通商合作關係在得到了他們的建議和支持後這些葡萄牙人就跟隨中國人一起來到中國做貿易。他們利用在緬甸買的中國帆船在海上航行,同時把蘇門答臘島的胡胡椒運往中國。當時在中國胡椒可以高價賣出的,賣價比買價高出十倍有多!

區華利當時是一位商人。他的帆船在15135月在内伶仃島停泊,位置在北緯度:22o41,東經度:113°8,香港屯門區的西邊。爲紀念他的新發現,區華利竪起一座刻有葡萄牙武器的石碑。區華利的兒子因爲在航程中去世,他的遺體被埋葬在那處。約於1514年中,區華利做完貿易後,就啓程返回馬六甲。

 

Jorge Álvares: o primeiro português que veio à China – 1513

Relacionando-se amigavelmente com mercadores chineses em Malaca de quem recebiam conselhos e apoio, os portugueses planearam uma viagem de comércio à China. Navegaram num junco comprado em Bago [Pegú 勃固] Myanmar 緬甸, carregado de pimenta em Sumatra, mercadoria que rendia então lucros elevados na China. O preço de venda era cerca de dez vezes o preço de compra.

Jorge Álvares era o mercador. O junco ancorou na ilha de Neilingding 内伶仃Lat: 22.41
Long: 113.8), a Oeste de Tuen Mun 
屯門區,  em Maio de 1513. Álvares levantou um padrão com as armas de Portugal. Seu filho, falecido na viagem, foi aí sepultado . Em meados de 1514 a missão comercial estava de regresso a Malaca.

 

Jorge Álvares: the first Portuguese to come to China – 1513:

Meeting friendly Chinese traders in Malacca and receiving their advice and support, the Portuguese planned a travel by commercial prospecting to China. They sailed in a junk, bought in Bago [Pegú 勃固] Myanmar 緬甸, loaded with pepper from Sumatra, commodity that then yielded higher profits in China. The selling price was 10 times the price of purchase.

Jorge Álvares was the trade maker.  The junk anchored in Neilingding island 内伶仃岛 (Lat: 22.41
Long: 113.8), in May 1513, West of Tuen Mun
屯門區.  Álvares put up a monument [padrão] to commemorate his discovery on which the arms of Portugal were engraved. His son, who had died on the voyage, was buried in the same place at the foot of the mountain. By mid 1514 the trade mission was back in Malacca


                                3

1515 年第二批通商代表團

第二批通商代表團由十個葡萄牙人組成,並以果阿的富商Raphael Perestrelo為首,於1515年乘坐三艘中國帆船離開馬六甲。

主要的商貨亦胡椒爲主。大約於1516年回到馬六甲之後,得到的收入超過成本二十倍。對於中國,葡萄牙人當時留下美好的印象。當時的文件記載著:中國是一塊十分和平之地和中國人是十分友善的。

 

Segunda missão comercial (1515)

Uma segunda missão comercial  partiu de Malaca em 1515, em três juncos chineses, com dez portugueses a bordo  chefiados por Raphael Perestrelo, rico mercador em Goa  果阿 .

A principal mercadoria era pimenta, novamente. No regresso a Malaca em 1516, as contas desta missão comercial registavam lucros avaliados em vinte vezes o valor das despesas. Sobre a China, a impressão dos portugueses era a melhor:  “terra de muita paz e os chineses um povo excelente”.

 

Second trade mission (1515)

A new trade mission left  Malacca in 1515 on board of three Chinese junks with ten Portuguese captained by Raphael Perestrelo, a rich merchant in Goa 果阿 .

The main commodity was again pepper. On return to that city in 1516, the accounts of the mission resulted in profits evaluated in twenty times the amount of expenses. On China, the view of the Portuguese was the best: "land of great peace and the Chinese a very good people.”


五百年已經過去,現在的中華人民共和國澳門特別行政區,我們面向未來,將批次繼續與葡語國家加强人民關係。

Quinhentos anos passados, estamos na Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China, abrindo caminhos de futuro nas relações entre a China e o os Países de Língua Portuguesa.  

After five hundred years, we are in the Macao Special Administrative Region of the People's Republic of China, opening new paths in the relations between China and the Portuguese-speaking countries.

14.Dez.2013

[1] Regimento dado a Diogo Lopes de Sequeira, para ir descobrir a parte oeste da ilha de São Lourenço, pois a outra era já toda descoberta, e quaesquer terras até Malaca, tomamdo de tudo enformação: Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Corpo Cronológico, parte I, maço 6, nº 82 – Reproduzido em Alguns Documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa, ANTT, 1892, pp. 194 e 195, e também nas Cartas de Afonso de Albuquerque, Lisboa, 1884, vol. III, pp. 403-419.


Thursday, 17 June 2021

A Igreja Católica em Macau e eu

e-mail aos Rev.˚s Padres Sequeira e Domingos.

Desculpe-me aborrecê-lo.

A minha fé está sólida.

Mas, desde Setembro passado, quando regressei de dois meses de férias em Sintra, sinto um progressivo desencanto com a Igreja Católica em Macau:

- o empenho e aparato na decoração da Sé com ouro ou dourados, pratas e prateados, trono episcopal marcando a autoridade eclesiástica, mas escassas vezes ocupado pelo Bispo, parecem-me seguir em  sentido contrário à humildade da Igreja, desde o Vaticano II e, mais recentemente, com o Papa Francisco;  

- o desaparecimento do celebrante para um canto longínquo e trazeiro da capela-mór, tanto mais invisível quanto menor a sua estatura física; entre outros aspectos.

- No passado Sábado, 13 de Maio, sofri um choque inolvidável. Dirigi-me à Sé, às seis da tarde, para a missa antecipada, como faço habitualmente. A segurança da Sé barrou-me a entrada. Não me foi permitido entrar. O "espectáculo" protagonizado pelo Sr. Bispo podia ser observado em dois écrans de televisão colocados no exterior, ao lado do portão central da Sé.Não apenas eu. Antes de mim, barraram a entrada a muitos chineses de ambos os sexos e a um casal português cujo cônjuge feminino é... catequista... na Sé... Conformaram-se e viram o "espectáculo" na TV do lado esquerdo. Eu tive esperança, rezei enquanto esperava. Mas desisti. Voltei para casa.   

Eu lembro-me da dificuldade em entrar na Missa de Natal, da meia-noite. Houve uma vez que não consegui mesmo assistir à Missa. Mas nunca me foi barrada a entrada na Casa de Deus.

Durante os cinco anos e meio que vivi em Pequim, mesmo em ocasiões festivas em que milhares de chineses entravam aos tropelões e saíam do mesmo modo, após saciada a sua curiosidade bisbilhoteira, provocando autênticas ondas entre a multidão de fiéis que permaneciam até ao final da Missa, nunca me foi barrado o acesso à Casa de Deus.

Eu rezo diariamente, em casa. O terço. Leio e medito nas Leituras do Evangelho de cada Domingo.

Valerá a pena voltar a correr o risco de me ser barrado o acesso à Casa do Senhor, novamente? Ou reservar-me desse vexame enquanto durar este ciclo de pompa, cadeirão episcopal em exposição permanente, mesmo vazio de Bispo, dourados e prateados, celebrante desaparecido nas trazeiras da Capela-Mór? 

Ainda um último desgosto. Doeu-me ouvir/ler a declaração da Reitora da Universidade Católica, na sua recente visita a Macau de que: A Universidade de S. José é uma Universidade chinesa. Nestes tempos difíceis, em que altos dirigentes da China põem em causa a subsistência do princípio Um País, dois sistemas, queira Deus que não nos saia na rifa, um dia destes, a imposição da Igreja Patriótica, para controlar as dioceses de Hong Kong e Macau. 

Abraço.

Jorge Morbey 

May 18, 2017  



 


O socialismo no conhecimento e o socialismo nas Nações

o que escrevi no dia em que me desvinculei da Universidade de Ciencia e Tecnologia de Macau: 

Numa das turmas da Universidade onde  lecciono, só cinco estudantes conseguiram passar no semestre que agora terminou.

 

Lembrei-me então da história de um professor de Economia de uma universidade americana  que nunca tinha reprovado um único aluno, até que uma vez reprovou uma turma inteira.

 

Esta turma tinha insistido que o socialismo realmente funcionava: com um governo assistencialista intermediando a riqueza,  ninguém seria pobre nem rico - tudo seria igual e justo.

 

Então o professor  disse: "Ok, vamos fazer uma experiência socialista nesta turma. Em vez de dinheiro, usaremos as notas que vocês obtiverem nos testes". Todos terão a mesma  nota que será a média das notas de todos os alunos da turma, e, portanto, serão 'justas'  'iguais' e 'socialistas' . Isto significa que, em teoria, ninguém reprovará e, muito provavelmente, ninguém receberá  um "A".

 

Após calculada a média do primeiro teste, todos tiveram "B". Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito satisfeitos com os resultados.

 

No segundo teste, os preguiçosos estudaram ainda menos, pois esperavam beneficiar das boas notas  dos mais diligentes. Estes, que tinham estudado bastante mas a quem não foi atribuída a classificação "A" decidiram estudar menos para o teste visto estar-lhe vedado o acesso à classificação "A".

 

Em consequência, a média dos testes foi "D".  Ninguém gostou.

 

No terceiro teste, a média geral foi "F".

 

As notas não voltaram a patamares mais altos e as desavenças entre alunos, acusações e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera daquela turma.

 

No final, ninguém queria estudar e todos os alunos reprovaram e tiveram de repetir aquela disciplina... 

 

Então o professor explicou: "A experiência socialista falhou porque quando a recompensa é excelente, o esforço para o sucesso individual é óptimo. Mas quando os governos eliminam todas as recompensas, levando algumas para dar a quem não trabalha, ninguém mais tentará ou quererá dar o seu melhor. Tão simples como os exemplos de Cuba, Coreia do Norte, Venezuela, etc., que estão chegando ... "

 

E acrescentou:

 

1.   Não se pode levar o mais pobre à prosperidade apenas tirando a prosperidade ao mais rico;

 

2. Para que cada um receba sem ter de trabalhar, há alguém trabalhando sem receber;

 

 3. Os governos não produzem riqueza e, por isso, não conseguem dar nada a ninguém, a não ser que o tirem a alguém;

 

 4. Ao contrário do conhecimento, é impossível multiplicar a riqueza dividindo-a;

 

 5. Quando metade da população entende que não precisa trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, chega-se ao princípio do fim da entidade colectiva / Nação! 

A = Excellent; B = Good; C = Fair; D = Weak but passes; F = Disapproved

                                                                                                                Jorge Morbey

                                                                                                                11. Jun.2017  




Cabo Verde: o Estado da Nação  

em e-mail de 24.Jul. (8:38 p.m.), o Jornalista António Monteiro, do Expresso das Ilhas, solicitou resposta a tres questões, até às 12 horas do dia seguinte. Foram-lhe enviadas às 8:14 p.m. do dia 25.Jul.

Ilustríssim(a)o,

Na próxima sexta-feira vai ser debatido o Estado da Nação na Assembleia Nacional. Como uma espécie de subsídio a esse debate, o Expresso das Ilhas achou por bem enviar a V. Exª três questões que gostaríamos nos fossem respondidas até 12 horas de amanhã, terça-feira.

1. Qual é na sua percepção o real estado da nação neste momento e quais os desafios que Cabo Verde tem pela frente?

O real estado da nação situa-se no costumado ciclo instituído desde o início da nossa democracia. De alternância entre a esperança e o desencanto do nosso Povo. Os dois partidos que se têm alternado no Poder podem querer este mundo e o outro para Cabo Verde. Mas não têm conseguido ou não têm sabido encontrar o caminho.

Os desafios que Cabo Verde, isto é, TODOS OS CABO-VERDIANOS, tem pela frente situam-se principalmente na ECONOMIA:

- investir na cooperação com Israel para a transformação das nossas áreas inférteis em zonas agrícolas férteis. Como os israelitas têm feito na reconversão agrícola do deserto de Neguev.

- transferir o eixo vital da nossa economia da terra para o mar. O nosso território é limitado. O nosso mar não tem limites. Os nossos recursos marinhos limitam-se a uma actividade piscatória incipiente e mal apetrechada. Cabo Verde precisa de investir e atrair investimento estrangeiro no estudo e desenvolvimento das indústrias do mar.

- A agilidade do nosso desenvolvimento económico e social e da unidade nacional do nosso povo, não são facilitadas pela nossa insularidade. Precisamos que a engenharia e as ciências do ambiente descubram a forma de unir a geografia das nossas ilhas. Pontes ou túneis? A via marítima e a via aérea são dispendiosas e não isentas de perigo. Precisamos de ligar, por infra-estrutura permanente, ente si, as ilhas de Barlavento. E as ilhas de Sotavento. E de encontrar qual a melhor solução para ligar, entre si, os dois grupos de ilhas. A abertura de canais, (desde o Panamá e do Suez) vulgar hoje. Empenhemo-nos em Cabo Verde para que a ligação física das nossas ilhas venha a ser possível, tão cedo quanto possível.

2. Nesta encruzilhada (desemprego, criminalidade, dívida externa,etc.) em que Cabo Verde se encontra que medidas espera do Governo para fazer face a estes problemas?

As por mim sugeridas atrás.

3. Que questões acha que deveriam estar acima dos interesses partidários e devem merecer a convergência dos partidos políticos.

Todas. Incluíndo as que sugiro atrás. O que só parece possível quando as mentes se libertarem verdadeiramente de certos tiques estalinistas nuns, de certa demagogia eleitoralista noutros, e na demasiada basofaria de todos.

Jorge Morbey

Cabo-Verdiano de S. Vicente, no exílio. Que muitos adoçam chamando-lhe diáspora.

Jornal Expresso das Ilhas, 24. Jul. 2017 

Agradeço antecipadamente a sua colaboração.

Cordialmente,

António Monteiro

 IPOR, LIVRARIA PORTUGUESA, ESCOLA PORTUGUESA & etc.

                                                                                                               Jorge Morbey       

1. A novela triste a que vimos assistindo, em que figuram o Instituto Português do Oriente, a Livraria Portuguesa e a própria Escola Portuguesa, é o resultado de um dos maiores erros cometidos por Portugal em Macau.

Tal erro persiste – herança dos sucessivos governos que têm passado pelo Poder em Portugal nos últimos vinte anos - e é urgente corrigi-lo.

Para tanto, é indispensável que o Estado Português assuma finalmente que:

- Portugal não dispõe de recursos suficientes para pôr em execução uma política externa - de Cultura e da Língua Portuguesa;

- A Língua Portuguesa não é património exclusivo de Portugal;

- Chegou ao fim a parceria que, em má hora, estabeleceu com a Fundação Oriente, com o objectivo de reforçar a sua diplomacia cultural nesta região do Mundo, em geral, e com a China e Macau, em particular.

2. Não é de agora a escassez de meios de que Portugal padece, nomeadamente para a execução da sua Política Externa. Na segunda metade do séc. XIX, por exemplo, foi Macau que assegurou – e disponibilizou o suporte financeiro – para garantir a manutenção das relações diplomáticas e consulares com os países desta região do Mundo. Nesse período, os Governadores de Macau eram investidos nas funções de representantes diplomáticos de Portugal em Pequim, Tóquio e Bangkok, com a categoria de ministros plenipotenciários.

3. No tempo em que desempenhei as funções de Presidente do Conselho Directivo do Instituto Cultural de Macau (1985/89) elaborei um projecto que situava Macau numa posição de equidistância relativa entre a China e Portugal, de modo a viabilizar o suporte necessário para o funcionamento de estruturas culturais das representações de Portugal na Ásia e, ao mesmo tempo, das representações da China nos Países de Língua Portuguesa. Salvaguardadas as diferenças em razão do objecto, a finalidade consistia em elevar Macau à posição de plataforma de relações culturais que poderia ter constituído o primeiro patamar do que é hoje o Forum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, num espectro ainda mais vasto por incluir países desta região com comunidades de luso-descendentes e sino-descendentes.

A Aministração Melancia preferiu seguir o figurino usado por Portugal no séc. XIX. Revelando escasso empenho em inovar, o projecto concretizou-se confinado à viabilização das estruturas culturais nas Embaixadas de Portugal em Seul, Pequim, Tóquio, Bangkok e Delhi que, obviamente, aprazava a sua morte para 1999, com a reunificação de Macau à China. 

O referido projecto encontrava-se, aliás, congelado pelo Eng. Melancia que o reactivou no contexto da criação da Fundação Oriente, quando se teria apercebido dos amplos poderes que se desenhavam para a então nóvel Fundação.

4. É de justiça referir o generoso optimismo do então Presidente da República, Dr. Mário Soares, e a confiança que depositou no papel que augurava àquela Fundação, de principal agente coadjuvante da acção cultural externa de Portugal no Oriente e, principalmente, em Macau. O seu entusiasmo terá sido o motor que propiciou àquela Fundação, durante a Administração Melancia-Murteira Nabo, o poder de decidir sobre a reestruturação do sector da Cultura em Macau e as condições altamente favoráveis com que adquiriu o valioso património imobiliário que vem alienando.

5. Infelizmente, o balanço destes últimos vinte anos revela que o desempenho reservado à Fundação Oriente se saldou num dos maiores erros cometidos por Portugal em Macau.

Após a transferência do exercício da soberania sobre Macau, quando dela se esperava um desempenho marcante na acção cultural externa de Portugal no Oriente e na promoção da Língua e da Cultura Portuguesa em Macau, verifica-se exactamente o contrário: alienação de património imobiliário; redução anunciada - e atrasos na disponibilização - de verbas para o funcionamento das estruturas em que tem parceria com o Estado Português; inexistência ou, pelo menos, invisibilidade de actividades de carácter cultural, educativo, artístico, científico, social e filantrópico, em Macau.

6. Para que foi criada a Fundação Oriente?

De acordo com os seus estatutos, a Fundação promove, de modo especial em Macau, todas as acções que visem a valorização do seu património cultural e artístico.

Por que foi reconhecida a utilidade pública da Fundação Oriente?

Em Portugal (Declaração publicada no Suplemento do Diário da República nº 54, II Série, de 6 de Março de 1989) e, em Macau (Decreto-Lei nº 16/89/M, de 8 de Março, publicado no Boletim Oficial de Macau nº 10).

O termo do vínculo, entre a concessionária em regime de exclusividade da exploração do jogo em Macau e a Fundação Oriente, que lhe garantiam rendimentos regulares, constitui circunstância superveniente que a dispensem do cumprimento das suas obrigações estatutárias?

Estas interrogações assumem uma enorme actualidade e devem ser avaliadas pelo Estado Português.

7. Nos tempos que correm, especialmente após o anúncio da venda das instalações da Livraria Portuguesa em Macau, a Fundação Oriente perdeu aqui a credibilidade que lhe restava.

8. Parece urgente e inadiável que o Estado Português assuma as suas obrigações e ponha termo à parceria com a Fundação Oriente, designadamente no Instituto Português do Oriente e na Escola Portuguesa de Macau, e:

- Uma vez que a Língua Portuguesa não é património exclusivo de Portugal, pelo menos desde 1822, com a independência do Brasil;

- Ascendendo Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Timor Leste a Estados independentes que adoptaram a Língua Portuguesa como sua Língua Oficial;

- Tendo em conta que os Estados de Língua Oficial Portuguesa fundaram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP);

- Em vista da DECLARAÇÃO SOBRE A LÍNGUA PORTUGUESA aprovada na VII CONFERÊNCIA DE CHEFES DE ESTADO E DE GOVERNO DA COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA, em Lisboa, a 25 de Julho de 2008;

                     e da

- Resolução sobre o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, aprovada na XIII REUNIÃO ORDINÁRIA DO CONSELHO DE MINISTROS da CPLP, em Lisboa, a 24 de Julho de 2008;

- Verficando-se a circunstância de, apesar de diminuir de ano para ano o número de alunos da Escola Portuguesa de Macau, cresce o número de alunos originários dos Países de Língua Oficial Portuguesa que, eventualmente, poderão vir a contrabalançar a diminuição dos alunos originários de Portugal:

É chegada a hora de alargar a agenda da CPLP a outras questões relativas à Língua Portuguesa, tais como: a difusão das culturas lusófonas, os Crioulos de origem portuguesa, as Escolas Portuguesas no estrangeiro, os Leitorados de Português em Universidades estrangeiras, etc. etc. etc.


Publicado no Jornal HOJE MACAU 6/3/2009

Sunday, 13 June 2021

 

In Memoriam – Aguinaldo Fonseca

                                                                                                                                            Jorge Morbey*

 

Aguinaldo Brito Fonseca, poeta cabo-verdiano da geração do “Suplemento Cultural”, com Gabriel Mariano, Ovidio Martins, Onésimo Silveira, Carlos Alberto Monteiro Leite,  faleceu na madrugada de sábado, 25 de Janeiro de 2014, em Lisboa. Tinha 92 anos e estava radicado em Portugal desde a segunda metade dos anos 40 do séc. XX.

Era natural da cidade do Mindelo, na Ilha de S. Vicente, onde nasceu a 22 de Setembro de 1922. Foi funcionário bancário e pastor nazareno.  Publicou um único livro de poesia, com o título “Linha do horizonte”, mas tem poemas de sua autoria em diversas publicações de língua portuguesa.

Além do Suplemento Cultural, publicou poemas em Claridade, Boletim Cabo Verde, entre outras revistas e publicações.  Os seus poemas fazem parte de várias antologias, uma delas “No Reino do Caliban”, organizada por Manuel Ferreira. A sua poesia está traduzida  em vários países.

Aguinaldo Fonseca relatou a Michel Laban, investigador argelino das literaturas lusófonas, que foi Amílcar Cabral, então estudante em Portugal e seu amigo, que lhe sugeriu o nome do livro “Linha do horizonte”, que viria a ser publicado pela Casa dos Estudantes do Império, em 1951. Aliás, um dos poemas desse livro, “Nova poesia”, é dedicado ao futuro líder africano.

Essa amizade e convivência com Amílcar Cabral não terão sido alheias à assunção de um fortíssimo sentimento de africanidade plasmado na sua poesia e que a liga à poesia da negritude. Aguinaldo Fonseca, é preciso reconhecê-lo,  foi o primeiro poeta cabo-verdiano  a colocar  África na essência da sua poesia.

Designado por “poeta esquecido”, pelo longo silêncio que sobre ele se abateu,  questionado por Michel Laban se deixara de acreditar no poder da poesia, Aguinaldo Fonseca respondeu: “para mim, poesia é vida”  e acrescentou que já não sentia  necessidade de publicar.

Para além de uma antologia breve da poesia de Aguinaldo Fonseca, para contextualizar essa mesma poesia na homenagem que aqui lhe prestamos, publicamos também um artigo de Amílcar Cabral intitulado “APONTAMENTOS SOBRE A POESIA CABOVERDIANA” (publicado no Boletim de Propaganda e Informação III, 28 (01/01/1952) e reproduzido em Obras Escolhidas de Amílcar Cabral, Vol. I: A Arma da Teoria – Unidade e Luta pela editora Seara Nova, 1976, p. 25-29) que termina invocando o último verso do poema “Sonho” de Aguinaldo Fonseca: “Outra terra dentro da nossa terra”.

 

Mamã, peço-te perdão

Por todas as mentiras que contei.

Foi sem querer…

A culpa foi do porteiro da vida

Que me indicou uma porta

Que não era a porta da minha vida.

 

 

 

SONHO

Mamã,

Já não vou partir,

Vou ficar aqui.

Esta terra é pobre, mas é minha terra.

Mamã,

este sonho meu,

é de nova vida

é de outra terra dentro da nossa terra.

Meus sonhos

   de asas desfeitas pelo sol da vida

   deslocam-se como répteis sobre a areia quente

   e enroscam-se raivosos

   no cordame petrificado da fragata

   das mil partidas frustradas.

   Ah meu avô escravo

   como tu

   eu também estou encarcerado

   neste navio fantasma

   eternamente encalhado

   entre mar e céu.

   Como tu

   também tenho a esmola do luar

   e por amante

   essa mulher de bruma, universal, fugaz,

   que vai e vem

   passeando à beira-mar

   ou cavalgando sobre o dorso das borrascas

   chamando, chamando sempre,

   na voz do vento e das ondas.

 

MAGIA NEGRA

Abro

  De par em par, a janela

  Ao convite da noite tropical.

  E a noite enche o meu quarto de estrelas vivas.

  Nesta hora morna e calma,

  Profunda e densa como um túnel,

  O rumorejar longínquo das palmeiras

  Varrendo o Céu

  É misteriosa voz do negro martirizado.

  Prendo os meus gestos e o meu grito abafo.

  Silêncio…

  No poço da paz nocturna

  Interceptada

  Pela orgia sincopada

  Das estrelas e dos grilos,

  Arrasta-se o vão lamento

  Da África dos meus Avós,

  Do coração desta noite,

  Feridos, sangrando ainda

  Entre suores e chicotes.

  E a Lua cheia veio

  À voz quente do batuque,

  Faz feitiço…

  E o negro dorme

  Ser santo um dia

 

 HERANÇA

            O meu avô escravo

            legou-me estas ilhas incompletas

            este mar e este céu.

            As ilhas

            por quererem ser navios

            ficaram naufragadas

            entre mar e céu.

            Agora

            aqui vivo eu

            e aqui hei-de morrer.

 

MÃE NEGRA

A mãe negra embala o filho.

Canta a remota canção

Que seus avós já cantavam

Em noites sem madrugada.

Canta, canta para o céu

Tão estrelado e festivo.

É para o céu que ela canta,

Que o céu

Às vezes também é negro.

No céu

Tão estrelado e festivo

Não há branco, não há preto,

Não há vermelho e amarelo.

—Todos são anjos e santos

Guardados por mãos divinas.

A mãe negra não tem casa

Nem carinhos de ninguém…

A mãe negra é triste, triste,

E tem um filho nos braços…

Mas olha o céu estrelado

E de repente sorri.

Parece-lhe que cada estrela

É uma mão acenando

Com simpatia e saudade…

 

CANÇÃO DOS RAPAZES DA ILHA

Eu sei que fico.

Mas o meu sonho irá

pelo vento, pelas nuvens, pelas asas.

Eu sei que fico

Mas o meu sonho irá …

Eu sei que fico

Mas o meu sonho irá

Nos frutos, nos colares

E nas fotografias da terra,

Comprados por turistas estrangeiros

Felizes e sorridentes.

Eu sei que fico mas o meu sonho irá …

 

Eu sei que fico

Mas o meu sonho irá

Metido na garrafa bem rolhada

Que um dia hei de atirar ao mar.

Eu sei que fico

Mas o meu sonho irá …

sei que fico

Mas o meu sonho irá

Nos veleiros que desenho na parede.

 

POVO

É sempre a mesma história repetida

É sempre o mesmo lado e a mesma fome

É sempre a mesma vida mal vivida

É sempre a mesma angústia desgrenhada

De quem naufraga em terra olhando o mar

O rubro desespero, a voz magoada

é o sonho bom desfeito ao acordar

 

É sempre esse horizonte de fuligem

É sempre esse aranhar em duro chão

Como fúria até ao centro da vertigem

Em busca da raiz da solução.

 

Círculo

Nascemos, morremos,

Tornamos a nascer em cada sonho, cada ideia, cada gesto.

Cada dia que chega é flor que se abre ao sol

Com novo cheiro, nova cor, nova beleza.

Nossos desejos são asas que se elevam

Cruzando o céu da vida em voo largo

Mas nunca chega, nunca páram

Enquanto corre o sangue e a vida cresce e rola.

O fim de um sonho é o começo de outro

Cada horizonte outro horizonte aponta,

E uma esperança morta outra esperança aquece..

Há magoas, alegrias, desesperos

E a gente insatisfeita

Enquanto ri ou chora

Ou canta ou fica triste

Vai nascendo, morrendo e renascendo

Cada dia, cada hora, cada instante

Noutra vida, noutro sonho, noutra esperança

 

Revolta

Revolta dentro do peito

Por aquilo que não fiz

E que devia ter feito.

Revolta dentro de mim

Por tropeçar em mim mesmo,

Por não saber onde estou…

Por caminhar tanto a esmo

Que trago os passos perdidos

Nos próprios passos que dou.

Revolta desde menino

Por tantas horas perdidas

A procurar o destino

Nas sombras doutros destinos

Revolta crua e sem fim(…)

Tantos pedaços de mim

Que destrocei sem saber!…

Revolta crua e sem fim,

Revolta triste e infeliz,

Por trazer esta revolta

Fechada dentro de mim,

Num verso que nunca fiz.

 

 

 

 

 

“APONTAMENTOS SOBRE A POESIA CABOVERDIANA”

 Amílcar Cabral

                          “Não me doi meu particular.

                          Peno cilícios da comunidade.

                          Água dum rio doce, entrei no mar

                          (Miguel Torga, “Cântico do homem”)     

 

I

Quando se debruça sobre o conteúdo da poesia caboverdiana, em busca do seu valor real, duas fases, nitidamente distintas, se mostram evidentes: a anterior ao aparecimento da revista Claridade, e a que começa com este acontecimento literário. Tão distintas são essas duas fases, que Osório de Oliveira não hesita em afirmar: “só agora (isto é, com Claridade) se pode falar da Literatura Cabo-verdiana”.

Significará isso que tudo quanto foi escrito antes das produções dos colaboradores da “Claridade” não tem valor literário? Que só merece ser considerado como Poesia, na verdadeira acepção do termo, o que escreveram os poetas da “Claridade” e os que se lhes seguiram?

Postas estas interrogações, está-se, necessariamente, perante o discutidíssimo problema da definição de Poesia, como expressão artística. Não constitui objeto deste apontamento abordar tal problema. Todavia, impõe-se uma tomada de posição, para que, quando menos, se possa ser coerente nas afirmações que tiverem de ser feitas.

A poesia, como qualquer manifestação artística e apesar de toda a característica individual, emanente da personalidade do Poeta, é necessariamente um produto do meio em que tem expressão. Quer dizer: por maior que seja a influência do próprio indivíduo sobre a obra que produz, esta é sempre, em última análise, um produto do complexo social em que foi gerada. Aliás, esta afirmação não passa dum lugar comum em todas as controvérsias referentes aos problemas da Arte, na actualidade.

Ao falar de controvérsias, não se esquece que não rareiam as vozes discordantes que se levantam para defender a exclusiva influência do complexo individual na manifestação artística. Ao referir este facto, está-se implicitamente perante a não menos discutida questão de se saber se a arte deve ser “dependente” ou “independente”, isto é, presente ou alheia aos problemas sociais do meio em que é produzida; ou, noutras palavras muito vulgarizadas actualmente: se a arte deve ser “interessada” ou “desinteressada”.

Assim, enquanto vai crescendo, dia a dia, o conjunto daqueles que pretendem ou querem uma arte com função social, cerram-se as fileiras daqueles que, teimosamente, arvoram a esfarrapada bandeira duma arte absolutamente independente, da chamada “arte pela arte”. E, ao qualificar-se de esfarrapada a bandeira dos que defendem uma arte “desinteressada”, está-se, ainda que de maneira implícita, tomando posição.

É que, na realidade, parece – e com este ponto de vista não se está metendo nenhuma lança em África – que, a qualquer das questões postas atrás: arte função do meio? arte com função social? – só pode ser dada uma resposta afirmativa. Não é possível considerar a arte (a Poesia, no caso presente) independentemente do homem-ser-social. A arte é e tem de ser, para que mereça tal designação, um produto do homem para homens.

A Poesia tem as suas raízes (passe o termo) mergulhadas nas condições socioeconômicas em que é criada. Note-se que não se afirma ser ela uma função exclusiva dessas condições. Não é, nem poderia ser, alheia a influência de outra origem, como a moral, a religião, as ciências, a filosofia, etc…

Quanto à sua função social, parece que o que se poderá discutir é qual a natureza da função social de determinada obra poética e, não, se essa função existe. Quer dizer: há uma acção recíproca entre o complexo social e a obra poética, admitindo que esta tenha algum mérito. O que interessa determinar é se tal obra constitui um bem ou um mal para aquele complexo, isto é, se o serve ou se o trai.

A evolução das sociedades humanas está na base de toda a evolução literária. Mesmo quando estes dois fenómenos se apresentam desarmónicos ou antagónicos, isto significa apenas que não se desenvolvem concomitantemente. A evolução das sociedades humanas é, por sua vez, uma função dos factores determinantes da estructura económica em que aquelas assentam.

 

II

A Poesia Cabo-Verdiana, como qualquer outra, só poderá ser compreendida se considerada em relação ao ambiente material e humano vivido pelo Poeta. Assim, seria conveniente determinar quais as características do meio cabo-verdiano que estiveram na base das manifestações das duas poesias atrás referidas: a anterior à “Claridade” e a que começa com esta revista.

A primeira, representada por Eugénio Tavares, José Lopes, Pedro Cardoso, Januário Leite, etc., caracteriza-se por um desprendimento quase total do ambiente, sublimando-se numa expressão poética que, excepção feita a algumas obras de E. Tavares e P. Cardoso, nada tem de comum com a terra e o povo do Arquipélago. Enquanto a poesia de J. Leite, por exemplo, oferece, nos seus sonetos, a expressão da reacção puramente sentimental, do Poeta, perante fenómenos que a ele e só a ele interessam, a de José Lopes traduz, mais do que qualquer outra, o cunho de cultura clássica, desligado do meio, que caracteriza a formação ideológica dos Poetas anteriores à “Claridade”.

Aliás, é precisamente nesse formação, adquirida principalmente no Seminário de S. Nicolau, como o faz notar Osório de Oliveira, ou por um louvável esforço pessoal, que reside a razão de ser das características da Poesia anterior à “Claridade”. Possuidores de uma cultura clássica, que em alguns atinge um grau verdadeiramente elevado, os Poetas da geração em referência esquecem a terra e o povo. De olhos fixos no que aprenderam nos livros e que talvez suponham insuperável, pouco mais conseguem do que imitar os autores seus conhecidos, produzindo uma Poesia em que o amor, o sofrimento pessoalíssimo, a exaltação patriótica e o saudosismo, são traços comuns.

Não se nega o mérito dalgumas das suas obras. Alguns sonetos de Januário Leite, composições de E. Tavares, esta ou aquela obra de J. Lopes e P. Cardoso, são – há que reconhecê-lo – de valor incontestável. Pode-se mesmo afirmar que em E. Tavares (ao cantar o ambiente bravense) e P. Cardoso (ao traduzir, do crioulo, quadras populares do Fogo) encontra-se já algo do que, mais tarde, se tornaria realidade nos Poetas da nova geração: uma comunhão íntima entre o Poeta e o seu mundo.

É ainda a influência da cultura clássica que caracteriza o aspecto formal da Poesia em referência: o respeito sagrado à métrica, a confrangedora submissão às algemas da rima.

Mas, como descortinar a influência do meio socioeconómico sobre estes artistas? Atente-se nas seguintes condições:

O povo, em geral, vive alheio à cultura e às manifestações artísticas. O Seminário, em S. Nicolau, por poucos pode ser frequentado. Ministra-se nele uma cultura clássica, à qual se ligam fortemente os que tiveram a felicidade de recebê-la. Tão forte é o elo, que os seminaristas (ou os autodidactas) de talento, encontrando abertas as portas duma vida onde podem desfrutar de posições de relevo, ignoram ou esquecem as realidades que os cercam. Opera-se neles a supremacia de tudo quanto é meramente filosófico, religioso ou moral, sobre o económico.

Melhor: é a própria condição económica em que vivem que facilita aquele alheamento das realidades cabo-verdianas. A terra e o povo estão distantes. Este, nas letras da Morna, canta os seus sofrimentos e amores, enquanto os poetas compõem sonetos perfeitos para exaltar um sentimento qualquer, as tranças e os olhos da hegéria, as belezas da Grécia ou uma data célebre da História

 

III

Bruscamente, porém, opera-se a transformação. A Poesia Cabo-Verdiana abre os olhos, descobre-se a si própria, – e é o romper duma nova aurora. É a claridade que surge, dando forma às coisas reais, apontando o mar, as rochas escalvadas, o povo a debater-se nas crises, a luta do cabo-verdiano “anónimo”, enfim, a terra e o povo de Cabo Verde. Por isso, o caracter intencional – e felizmente intencional – do nome da revista que revela essa profunda modificação na Poesia Cabo-Verdiana: Claridade.

Aliás Jorge Barbosa, Oswaldo Alcantara (Baltazar Lopes), Corsino de Azevedo, Manuel Lopes, Teixeira de Sousa, Jaime de Figueiredo, etc, são os pioneiros do acontecimento.

Os poetas, agora, são homens-comuns que caminham de mãos dadas com o povo, e de pés fincados na terra. Cabo Verde não é o sonhado jardim hesperitano, mas, sim, o “Arquipélago” e o “Ambiente”, onde as árvores morrem de sede, os homens de fome – e a esperança nunca morre. O mar já não tem sereias e as ondas não beijam a praia. O mar é a estrada da libertação e da saudade, e o marulhar das vagas é a tentação constante, a lembrança permanente do “desespero de querer partir e de ter de ficar”. Até o caminho qualquer, “amassado pelo gado que a seca matou”, tem vida, assim como “os coqueiros esguios” e o “céu azul e ardente que não promete chuva”.

A terra, “a terra mártir” – é a Mamã que “alimenta” os filhos “com a ternura das suas entranhas”; que não morreu, mas jaz adormecida “numa migalha de terra no meio do mar”.

A voz do Poeta, agora, é a voz da própria terra, do próprio povo, da própria realidade cabo-verdiana.

Como se operou tão profunda transformação na Poesia de Cabo Verde? Tal modificação corresponderá a uma evolução do complexo económico-social? Atente-se nas seguintes condições:

O povo, na generalidade, continua alheio a toda a manifestação artística e cultural. A cultura é ainda o apanágio dum sector restrito da sociedade cabo-verdiana. Mas é precisamente neste sector que se operou uma modificação.

O Liceu, com a democratização do ensino, independente da religião, trouxe maiores facilidades de acesso à Cultura. Aumentou, na fileira dos intelectuais, o número de elementos provenientes da chamada “gente humilde”. Além disso, o fulcro da intelectualidade cabo-verdiana, passando de S. Nicolau para a cidade do Mindelo, à beira do Porto Grande, encontrou-se em contacto mais amplo com o Mundo, onde se operava, dia a dia, a evolução da mentalidade humana, concretizando-se as aspirações do homem.

É de admitir-se que tal transformação resultou principalmente desse contacto, em essencial com a literatura metropolitana e brasileira. Na realidade, as primeiras produções da Claridade, manifestam uma certa influência da corrente literária que caracterizou o Presencismo e da poesia brasileira de então. Influência que se limitou a mudar as directrizes da poesia cabo-verdiana. O Poeta, em vez de olhar para as nuvens, devia buscar o sentido da sua poesia na realidade em que vive.

Infelizmente, a primeira fase da Claridade foi um relâmpago. Mas foi o suficiente para a nova geração de Poetas cabo-verdianos poder ver claro, e compreender que a Poesia de Cabo Verde só poderia ter personalidade, possuir um real valor, se, sem intenção premeditada, fosse “os olhos e a boca” do Arquipélago das secas.

Anos volvidos, aparece a “Certeza”, folha infelizmente efémera, fundada por estudantes do Liceu. Nela, Arnaldo França, Nuno Miranda, Tomaz Martins, G. Rocheteau e outros jovens, ensaiam uma nova mensagem e mostram que compreenderam a dos Poetas da Claridade. Mas a “Certeza” não é apenas uma compreensão da aaa Claridade.

O seus Poetas – o contacto com o Mundo é cada vez maior – sentem e sabem que, para além da realidade cabo-verdiana, existe uma realidade humana, de que não podem alhear-se. Sentem e sabem que não é apenas em Cabo Verde que “há gritos lancinantes pela noite silenciosa” e “homens vagabundos” que “fitam estrelas que a madrugada esculpiu”. E dizem, querem dizer “um canto… que cruze nos mares mais distantes e entre nos corações dos homens… um canto com contornos de paz e relevos de esperança”. De esperança.

 

IV

Mas a evolução da Poesia Cabo-Verdiana não pode parar. Ela tem de transcender a “resignação” e a “esperança”. A “insularidade total” e as secas não bastam para justificar uma estagnação perene.

As mensagens da Claridade e da Certeza têm de ser transcendidas. O sonho de evasão, o desejo de “querer partir”, não pode eternizar-se. O sonho tem de ser outro, e aos Poetas – os que continuam de mãos dadas com o povo, de pés fincados na terra e participando no drama comum – compete cantá-lo. O cabo-verdiano, de olhos bem abertos, compreenderá o seu próprio sonho, descobrirá a sua própria voz, na mensagem dos Poetas.

Parece que António Nunes e Aguinaldo Fonseca estão na vanguarda dessa nova Poesia. Não se conformam com a estagnação. A prisão não está no Mar.

O primeiro, auscultando a terra e o povo, sonha com um “Amanhã” diferente, que antevê possível. E descreve a alteração que há de operar-se: “Em vez dos campos sem nada…” E profetiza, para a terra cabo-verdiana, a “vivificação da Vida”.

O segundo exprime, em toda a sua grandeza, o “naufrágio em terra” do povo a que pertence. Retrata os “homens calados” sofrendo a “dor da Terra-Mãe…num abandono de não ter remédio”. Dos homens, “presos na cadeia da desesperança”. E o seu sonho, não é de “querer partir”: é de

“Outra terra dentro da nossa terra”.

 Jornal Ponto Final, 27.Jan.2014